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Geometria entre o céu e a terra

Imponentes, as pirâmides do Egito se destacam entre os patrimônios arquitetônicos da humanidade há milênios. Estão entre os monumentos mais conhecidos e lembrados de todo os tempos e, não por acaso, receberam status de maravilhas do mundo. Mas existem diferentes pirâmides pelo mundo que se destacam também.

Com tamanha beleza e grandiosidade, é natural que as pirâmides do Egito impressionem. Além disso, mesmo com tantas pesquisas e avaliações, elas ainda conseguem guardar alguns segredos que intrigam os estudiosos e aumentam seu fascínio entre os admiradores de antiguidade.

Os túmulos dos faraós Queóps, Quéfren e Miquerinos, no entanto, estão longe de ser a única tentativa da humanidade de construir utilizando esse formato peculiar. Menos famosos, porém igualmente fascinantes, os monumentos de povos como os kush e os maias intrigam cientistas e começam a criar sua própria geração de admiradores.

Perto do Egito, no Sudão, o povo kush floresceu por volta de 1.000 a.C. tornando-se uma grande potência regional. Inspirados em seus vizinhos, os reis kushite construíram uma verdadeira necrópole em Meroé, capital do reino.

No total, são cerca de 200 pirâmides entre 6 e 30 metros de altura, que abrigavam os restos mortais de dezenas de reis e rainhas. As pirâmides eram tantas que muitas chegavam a ser coladas umas nas outras, um esforço da engenharia para aproveitar cada centímetro da necrópole.

O local, que é considerado patrimônio da humanidade pela Unesco, sofreu muitas avarias no século XIX, quando arqueólogos e exploradores descobriram o sítio e retiraram dezenas de relíquias. Um dos danos mais visíveis foi a destruição do topo de várias construções causada pelo italiano Giuseppe Ferlini, e a perda de decorações.

Ainda hoje, as pirâmides da Núbia, como também era conhecido o reino kush, sofrem ameaças devido às instabilidades políticas e guerras que afligiram o Sudão, mas graças à qualidade de sua construção, permanecem de pé, enfrentando o tempo. Justamente pela falta de segurança da região, permanecem desconhecidas da maioria dos turistas, ofuscadas pelas famosas colegas egípcias.

Do outro lado do mundo, outro povo também encontrou nas pirâmides um modo de honrar sua cultura e tradição. Em meio à bela cidade de Chichén Itzá, os maias ergueram no século XII d.C. uma pirâmide em homenagem a Kukulcán, o deus serpente emplumada, que permanece encantando os turistas que vão ao México especialmente para conhecê-la.

O templo impressiona por sua precisão matemática. Os maias, que foram grandes astrônomos, projetaram cada detalhe da pirâmide para que representasse a passagem do tempo. De certa forma, a pirâmide funciona como um enorme calendário para aqueles que conhecem seu funcionamento.

Ao todo, são 9 patamares, acima dos quais se encontra um templo. Cada fachada lateral tem escadas com exatos 91 degraus. Somados, equivalem-se a 364. Para atingir o templo, é necessário subir mais um degrau, completando 365 – ou seja, um degrau para cada dia do ano, segundo o Haab, um dos calendários maia.

O Haab, um calendário agrícola, dividia-se em 18 meses com 20 dias, totalizando 360, e mais 5 dias adicionais. Cada mês chamava-se uinale, os dias eram os kinles e os 5 dias adicionais, os uayeb.

Já de acordo com o calendário sagrado, chamado Tzolkin, o ano era composto por 13 meses, cada um com 20 dias. Da união do Haab e do Tzolkin, surgiu a roda calendária, na qual, cada ciclo completo com os dois calendários tem 52 anos.

Cada fachada foi decorada com 52 painéis em baixo relevo, representando os anos da roda calendária. Como as escadas dividem os pavimentos ao meio, é possível multiplicá-los por 2. O resultado? 18, o mesmo número de meses do Haab. No topo do templo também existiam 5 adornos em cada face, totalizando 20, uma para cada dia.

As relações da pirâmide de Kukulcán com o passar do tempo não terminam aí. Todos os anos, no solstício de outono e no de primavera – períodos em que o dia e a noite têm a mesma duração – a posição do sol forma uma sombra na pirâmide exatamente igual à de uma serpente. Um efeito que só foi possível graças aos amplos conhecimentos do povo maia sobre a astronomia.

Para quem se dispõe a conhecer Kukulcán, outro fenômeno é fonte de encantamento. Na porta do templo, aplausos soam como o canto do pássaro quetzal, devido à maneira como as ondas do som se refratam nas pedras. Uma dica é aplaudir em grupo: quanto mais pessoas, mais forte fica o som.

Para preservar este tesouro maia, o maior segredo da pirâmide fica escondido dos turistas, em um local onde é proibida a entrada. Não bastassem seus imponentes 30 metros de altura, a pirâmide Kukulcán guarda mais um templo em seu interior, que foi palco para cerimônias religiosas e serviu de base para a construção dedicada Kukulcán.

A capacidade humana de transformar o espaço ao seu redor, levando em conta os fenômenos da natureza, nunca para de surpreender. O fato de distintas civilizações, em locais e épocas diferentes, se unirem para criar monumentos tão perfeitos que resistem ao tempo é prova de que todas as pessoas guardam em si potenciais únicos e são capazes de realizar as proezas mais incríveis. Resta a cada um de nós aproveitar a inspiração dos antigos e dar consequência a seu legado, criando um mundo cada vez mais espetacular.

Palácios Subterrâneos

Poucos países no mundo podem se orgulhar em unir tantos contrastes quanto a Rússia. A maior nação do planeta em termos territoriais se estende da Ásia à Europa, enfrenta temperaturas congelantes no inverno e escaldantes no verão e consegue abrigar mais de cem etnias diferentes, desde a maioria russa até povos que correspondem a menos de 0,1 por cento da população.

A história, a paisagem e a cultura russas são marcadas pelos extremos e não seria diferente com a capital. Moscou, a cidade que abrigou czares e dirigentes soviéticos, aprendeu de um jeito único a conviver e exaltar seus opostos.

Um dos grandes exemplos disso é o metrô local, conhecido como palácio subterrâneo. Criado em 1935, em plena era soviética, o metrô deveria servir como um exemplo de modernidade para a nova era industrial que o país atravessava, mas também impressionar a população, como os monumentos da era czarista. O resultado foi uma linha de transporte eficaz e resistente para o transporte de milhões, mas que também tem uma estética capaz de rivalizar com os famosos marcos arquitetônicos da cidade, como a Praça Vermelha e o Kremlin. Em outras palavras, palácios para o povo.

Com materiais nobres, como mármore, granito, bronze e até ouro, peças de arte dão vida a momentos, personagens e símbolos da história russa e soviética, incluindo o próprio Stalin, que foi homenageado com diversas esculturas e murais com sua imagem. Após sua morte, em 1953, o Stalinismo entrou em declínio, e em 1955 o partido soviético decidiu investir mais na modernização e ampliação da rede, em detrimento da arquitetura.

Como resultado, as estações passaram a ter decorações mais simples e muitas das obras de arte criadas para homenagear Stalin foram removidas. No entanto, a maioria das estações foi preservada em sua beleza original.

Hoje, as 196 estações são parada obrigatória para turistas que estão explorando a Rússia. Embora unidas por um belo conjunto de 12 linhas, que se estendem por 346 km e transportam mais de 9 milhões de pessoas diariamente, cada estação tem uma decoração particular.

Entre as mais bonitas está a de Elektrozavodskaya, inspirada em uma fábrica de lâmpadas que ficava próxima. O projeto foi atrasado devido à Segunda Guerra Mundial, porém, ainda assim, a construção não foi interrompida e a estação foi inaugurada em 1944. O clima de conflito que marcou a época está estampado em baixos-relevo de mármore contando a história da guerra nas plataformas, obra do artista Georgiy Motovilov.

Mas o grande destaque está nas 318 lâmpadas dispostas em seis fileiras no teto, que rementem à fábrica vizinha, ideia dos arquitetos Vladimir Shchuko, Vladimir Gelfreich e Igor Rozhin.

Já a estação de Komsomolskaya é extremamente interessante, tanto do ponto de vista da engenharia, quanto da arquitetura. A primeira parte da estação, construída em 1935, pertence à linha Sokolnicheskaya e apresentou diversos desafios devido às fortes chuvas que inundaram o solo no verão de 1934, além de estar localizada em um dos pontos com tráfego mais movimentado de Moscou, o que exigiu vários reforços estruturais.

Por dentro, as plataformas são cobertas por calcário rosa e as colunas têm topos de bronze com o símbolo da liga de trabalhadores juvenis do partido comunista, chamada Komsomol.

Já a segunda estação, que pertence à linha Koltsevaya, é de 1952 e também está ligada à Segunda Guerra.  A ideia para a decoração, que evoca grandes chefes militares russos,  foi inspirada em um discurso de Stalin realizado em 1941, no auge do esforço de guerra.  Seus oito mosaicos principais, instalados no teto, são inspirados nos da Catedral de Santa Sophia, em Kiev, e retratam nomes como Alexander Nevsky, Dmitry Donskoy e Mikhail Kutuzov.

No entanto, os painéis que registram as vitórias na Segunda Guerra e, especialmente Stalin, sofreram modificações até 1961, com alguns sendo totalmente reformulados, como o que atualmente mostra uma mulher comemorando a vitória contra os nazistas em frente ao mausoléu de Lenin, mas que, antes, apresentava uma parada militar.

Ainda hoje, como toda obra de infraestrutura, o metrô de Moscou passa por reformulações para ampliar seu alcance e eficiência. Apesar disso, sua arquitetura e tradição são mantidas como um patrimônio da população russa, servindo como um lembrete de sua história em meio ao mais cotidiano dos transportes.

A Regra de Ouro

“Então explica-me, forasteiro, que é esse belo?” A pergunta feita por Sócrates ao sofista Hípias é tão direta quanto complexa mas, embora tenha ficado registrada no célebre diálogo escrito por Platão, está longe de ser a primeira ou a única interrogação do ser humano acerca do que seja a beleza.

Para os artistas gregos contemporâneos de Sócrates, só uma resposta era possível para essa questão: beleza é equilíbrio. Portanto, para homens como o escultor e arquiteto Phídias, o caminho para a perfeição passava necessariamente pela proporção. Não à toa, o instrumento preferido do autor do Parthenon nesta jornada acabou sendo batizado em sua homenagem.

O número phi, no entanto, tem tantos nomes quanto dígitos. Em grego, idioma de onde surgiu, representa-se como Φ.  Para cálculos, ele é abreviado em 1,618, mas, como é um número irracional, ele não tem um resultado exato, estendendo-se infinitamente. No entanto, este está longe de ser o único fato curioso sobre o número.

A “proporção divina” é um fruto da chamada sequência Fibonacci. Descoberta no século XIII pelo matemático italiano Leonardo Fibonacci, a sequência determina que a soma dos dois números anteriores será igual ao próximo número. No entanto, quando se divide um número pelo anterior, o resultado gira em torno de phi e se aproxima cada vez mais de 1,618 conforme o valor aumenta. Os dez primeiros números da sequência costumam ser os mais estudados como exemplo. São eles: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55.

O phi é encontrado nos mais diversos elementos da natureza sendo, por isso, considerado por muitos o símbolo da perfeição do universo. O “número dourado”, como também é conhecido, determina o crescimento de uma população de coelhos, a razão entre as espirais de sementes no miolo dos girassóis, o tamanho das espirais das conchas, a proporção entre machos e fêmeas em uma colmeia e diversas medidas do corpo humano.

Este último exemplo tem sua imagem máxima registrada no famoso “Homem Vitruviano”, desenhado por Leonardo da Vinci. O autor da Monalisa foi o primeiro a conseguir demonstrar a existência do phi nas proporções no corpo humano.

Mas é na arquitetura que o phi atinge seu potencial máximo, evidenciando o equilíbrio, simetria e proporcionalidade das construções. Alguns dos monumentos mais famosos do mundo carregam em seu projeto a chamada divina proporção, como as pirâmides do Egito, e se tornaram sinônimo de beleza e do potencial humano.

Para Rafael Manzo, prof. de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o phi representa o conjunto dos propósitos da arquitetura –  a união entre funcionalidade e representação de nossas visões de mundo de modo a tornar a vida das pessoas melhor – e por isso,  pode ser considerado um símbolo da beleza:

“Os parâmetros de análise se transformam com o tempo, mas não o conceito básico, e é uma consequência de relações de proporcionalidades matemáticas entre as partes com o todo. E é justamente aí que reside como um dos mediadores a Secção Áurea, ou Proporção Divina, ou phi”, explicou ele.

Hoje a ideia de belo é mais abrangente que os conceitos adotados na Grécia Antiga e alcança uma ampla diversidade de estilos, como barroco, neoclássico, contemporâneo e outros. O phi permanece como um fundamento clássico da perfeição, no entanto, é possível usá-lo de diversas maneiras, ou até mesmo não aplicá-lo e ainda assim ter um resultado interessante, baseado no contraste entre as formas e desequilíbrio.

“Não há apenas um conjunto de parâmetros para a análise da arquitetura da nossa época”, conta o professor. “Podemos encontrar tanto o phi na base dos fractais (formas geométricas cujas partes são frações idênticas do todo, como um floco de neve) utilizados para a formulação de algumas obras de arquitetura como a sua negação constituindo-se em um de seus aspectos básicos”.

Para os amantes das Belas Artes, entender o phi e suas aplicações permanece como uma maneira de entender os esforços de arquitetos, artistas e da própria natureza ao longo do tempo em busca da perfeição. O resultado desta jornada se encontra nos locais mais inusitados, pronto para inspirar aqueles que se dispõem a surpreender o olhar.

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O Encaixe Perfeito

Poucas coisas simbolizam tão bem um povo e uma cultura quanto sua arquitetura. Por meio dela, por exemplo, é possível entender o estilo de vida, as dificuldades, as tecnologias, as crenças e as condições em que viviam os nossos mais remotos ancestrais – e, por meio dessa herança, entender um pouco mais sobre nós mesmos.

Assim como todos os aspectos de uma cultura, a arquitetura é diversa, o que a torna incrivelmente fascinante. Vários fatores colaboram para isso, como o relevo, clima e os materiais disponíveis, mas o que mais impressiona são as soluções encontradas para equilibrar todos eles: as técnicas.

Um dos processos mais antigos e complexos é chamado de construção em pedra seca. Muito usada em muros de fortalezas, essa técnica consiste em encaixar pedras de diferentes formatos e tamanhos sem a necessidade de argamassa ou cimento.

Em uma analogia moderna, seria quase como brincar com peças de Lego, com uma pequena diferença: o tamanho monumental e a resistência, que chega a dezenas de séculos.

Embora pareça improvável que um amontoado de pedras possa permanecer erguido por tanto tempo sem algo que as una, a verdade é que a maneira como são feitas estas construções, em alguns casos, as deixam mais resistentes que aquelas que utilizam argamassa. Isso porque chuva e neve vão enfraquecendo as estruturas de argamassa com o tempo.

Por serem impermeáveis, as pedras secas acabam apresentando problemas de drenagem no solo e a rigidez também dificulta a adaptação aos movimentos do solo.

É importante também lembrar que o empilhamento não é aleatório, pelo contrário. Para que a estrutura seja firme é preciso colocar as maiores pedras por baixo – o que às vezes significa usar blocos que pesam toneladas. A junção entre as pedras de duas fileiras não deve coincidir, as pedras precisam ser planas e o maior comprimento é voltado para a parte de dentro do muro, não para a lateral.

“A técnica de pedra seca, por dispensar a utilização desta argamassa, requer um travamento das pedras maiores ente si com a cuidadosa e seletiva inserção de pedras menores, ocasionando o equilíbrio e estabilidade ao conjunto”, disse ao Olhares do Mundo o professor João Carlos Gabriel, coordenador do curso de Engenharia Civil da Universidade Presbiteriana Mackenzie em Campinas.

A partir daí, o método se torna cada vez mais adaptável, dependendo das necessidades para qual a obra se destina. Existem aquelas formadas por duas fileiras de pedras com o interior preenchido cuidadosamente com pedras menores colocadas uma a uma; há ocasiões em que espaços são deixados intencionalmente para permitir a passagem do vento em regiões com muitas tempestades, evitando o colapso das pedras. Um dos métodos mais complicados é o dos Incas, que lapidam pedra seca de forma a se encaixarem perfeitamente, sem deixar o menor espaço entre si.

Apesar das diferenças, em geral essas construções são permeáveis, facilitando a drenagem e, como são feitas de pedra, também são à prova de fogo. A técnica bem trabalhada e a matéria-prima durável garantem que essas construções apresentem um nível de resistência muito alto. No Peru, há relatos de construções em pedra seca feitas pelos Incas em Cuzco que permaneceram intocadas após terremotos, enquanto as construções espanholas desabaram.

Embora a base seja parecida, cada civilização usou a técnica com uma finalidade ou de maneira diferente. Os britânicos a utilizaram amplamente em muros, enquanto os Incas construíram prédios inteiros e, no oriente, foi utilizada em fundações como a do Castelo de Kumamoto.

Este último, após 400 anos de resistência aos mais diversos ataques, sofreu avarias devido a terremotos, no entanto, evidencia mais uma característica das pedras secas: a facilidade de reparação. Enquanto as paredes de argamassa costumam desmoronar totalmente, dependendo da intensidade do tremor, o desmoronamento é apenas parcial e as pedras podem ser reaproveitadas.

Todas essas vantagens explicam porque o método da pedra seca é usado desde a antiguidade e persiste até hoje. No entanto, é um procedimento demorado e que exige muito esforço, o que o torna pouco adequado para as construções em larga escala dentro de centros urbanos, como explica o professor João Carlos:

“As obras levantadas com a técnica de pedras secas demandam seções transversais de paredes maiores que obras construídas com alvenaria de tijolo, bloco cerâmico, bloco de concreto ou também de aço, o que reduziria a área útil interna da residência do morador. Elas também demandam um tempo para levantamento da obra muito maior do que aquele com o levantamento com técnicas e materiais mais modernos, leves e sintetizados pelo homem”.

A beleza e a funcionalidade dos projetos executados com pedra seca ainda impressionam. Os monumentos são lembretes constantes da capacidade do ser humano de transformar o meio em seu favor, criando novas possibilidades a partir do que a natureza oferece, em qualquer lugar ou época. Quando um potencial como esse é explorado da melhor forma, o resultado é, no mínimo, inspirador.

Antoni Gaudí arquitetura Espanha

A Natureza de Antoni Gaudí

Um museu ao ar livre. Barcelona, na Espanha, esbanja obras impressionantes em suas ruas e vielas. Casas, igrejas, e até mesmo postes de luz tão únicos que não podem ser encontrados em nenhum outro lugar do mundo. E, isso tudo, tem um único idealizador e criador: Antoni Gaudí.

O arquiteto catalão, nascido em 1852, é responsável pelo início do modernismo no país, com construções que, para a época, beiravam o surrealismo. A natureza, sua maior inspiração, fez com que suas obras repelissem, em sua maioria, linhas e ângulos retos.

Um de seus mais conhecidos projetos, a Casa Batlló, traz uma série de aspectos naturalistas que podem ser encontrados na vida animal e na geografia do nosso planeta. Contratado pela família que levava o mesmo nome do edifício, Antoni Gaudí foi responsável pela reforma do prédio. Na parte superior da construção, por exemplo, o telhado lembra escamas de dragão. Aquilo que seria o olho do dragão, foi inspirado nas formações do Monte Serreado, ou Montserrat, montanha mais significativa para o povo da Catalunha. A escada da entrada principal, esculpida em madeira castanheira, lembra a vértebra de um animal pré-histórico. Já as janelas da fachada lembram um morcego de asas abertas. Internamente, se destacam o átrio da lareira em forma de cogumelo, o teto do salão principal em espiral, fazendo menção à Via Láctea, e as ondulações no teto da sala de jantar, inspiradas no movimento da água.

O Templo Expiatório da Sagrada Família é outro legado que Gaudí deixou para a humanidade. A construção da Igreja passou pelas mãos de diversos arquitetos, mas foi Antoni Gaudí o responsável pela criação da Fachada da Natividade, a primeira e mais imponente fachada do templo religioso. Nela, estão representadas, sutilmente, diversos aspectos conhecidos como evocadores de vida: Esperança, Fé e Caridade.

Outra magnífica obra do artista é o Parque Güell, um complexo parque urbano repleto das mais diferentes construções arquitetônicas. Localizado no distrito de Gràcia, bairro conhecido pela intensa vida noturna, o parque abriga o local onde Gaudí viveu por quase vinte anos. Dentro do recinto, um museu conta com objetos pessoais do arquiteto, como a cama em que ele dormia. Para os apaixonados pelo trabalho do arquiteto, o Parque Güell é, literalmente, a cidade de Gaudí. Escadas, paredes, fontes, pontes e até casas inteiras podem ser facilmente identificadas como construções do catalão.

É difícil imaginar como são essas obras. Sem dúvida, a melhor maneira é conferir com os próprios olhos. Mas, felizmente, é possível ter uma leve ideia de cada uma das construções de Antoni Gaudí. Até 16 de fevereiro deste ano, em São Paulo, estão em exposição maquetes, móveis e objetos construídos pelo arquiteto catalão. A mostra “Gaudí, Barcelona 1900” está no Instituto Tomie Ohtake, aberto de terça a domingo, das 11h às 20h.