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Dinâmicas do Corpo

Poucas coisas são capazes de nos emocionar tanto quanto o esporte. Todo o potencial físico do atleta trabalha em busca de apenas um objetivo, a vibração da torcida, a beleza da vitória, a dor da derrota. Drama, suspense e ação em um mesmo ato: poderia ser um filme, se não se tratassem de histórias reais – e que histórias. Dentre todas as modalidades, se existe uma categoria que transita entre o esporte e a arte é a ginástica. Dividida entre ginástica artística masculina e feminina– também conhecida como olímpica – e ginástica rítmica masculina e feminina, a modalidade é famosa por propiciar espetáculos.

Os movimentos da ginástica são conhecidos e praticados desde a pré-história. O esporte era reconhecido em civilizações como o Egito Antigo, onde era praticado pelos soldados para fortalecimento, e nas olímpiadas da Grécia Antiga, de onde também veio a palavra gymnastiké,  origem de seu nome. No entanto, a institucionalização como esporte ocorreu apenas em 1811, quando o professor alemão Friedrich Ludwig Jahn, inspirado pelas ideias de Jean-Jacques Rousseau e Johann Christoph Friedrich Guts Muths, criou um clube voltado exclusivamente para a prática de ginástica.

Nesse mesmo período, surgia uma preocupação sobre como era possível expressar os sentimentos através do corpo. Os coreógrafos Émile Jacques Dalcroze e Rudolf Bode foram alguns dos principais responsáveis por unir a dança à ginástica artística, tornando os movimentos mais leves. Mas foi a norte-americana Isadora Duncan quem realmente popularizou o esporte, já no século XX, levando-o à antiga União Soviética, onde se tornou uma modalidade oficial.

Hoje ambas as modalidades são reconhecidas e disputadas por homens e mulheres em campeonatos por todo o mundo. Nos Jogos Olímpicos, as apresentações de ginástica são famosas por serem alguns dos momentos mais esperados de toda a competição, rendendo momentos icônicos como o “dez perfeito” da atleta romena Nadia Comaneci, nos Jogos de 1976. A menina, que tinha apenas 14 anos nas Olimpíadas de Montreal foi a primeira ginasta da história a atingir todas as notas máximas nas barras assimétricas – algo que, até então, era considerado impossível.

O Brasil também tem excelentes lembranças da ginástica, com nomes como Daiane dos Santos, a primeira brasileira campeã mundial na ginástica artística, os irmãos Daniele e Diogo Hypólito e, recentemente, o campeão Arthur Zanetti, o primeiro ginasta brasileiro a conquistar o ouro olímpico.

Mas entre o sonho do pódio e a glória da medalha existe muito mais do que o que aparece na hora da competição. Quem vê os movimentos leves, sincronizados e executados tão perfeitamente se encanta com a habilidade que os atletas demonstram nos aparelhos, mas não sabe que, por trás de cada pirueta, existem anos e anos de sacrifício de atletas e equipe técnica.

Para a treinadora da seleção brasileira individual de ginástica rítmica, Monika Queiroz, um campeão não surge apenas com fatores isolados, mas de uma união entre esforço, condições materiais e formação pessoal.

“Tem os ganhos pessoais, o fator motivacional, a preparação que você vai fazer com o seu técnico, com sua equipe técnica. Isso eu digo que está na parte de 20 a 30%. 70% são os ganhos materiais. Que são o que? Condições de treino, uma equipe multidisciplinar, um pró-labore em que o atleta possa viver – e não sobreviver. Porque se ele está sobrevivendo ele não está sendo mais atleta, ele está fazendo esporte por opção”, disse Monika ao Olhares do Mundo.

Para o desenvolvimento de uma carreira longa e produtiva, também é preciso muito tempo de treinamento contínuo. Segundo Monika, a idade ideal para que uma criança seja introduzida na ginástica é durante a fase de alfabetização, entre 5 e 7 anos.

No entanto, é preciso enxergar o esporte como um complemento lúdico das demais atividades da criança e não forçar a participação em competições desde cedo, já visando a formação de um atleta olímpico. É claro que um campeão precisa treinar desde pequeno, o que não significa que todos os pequenos atletas seguirão no caminho do esporte. A diferença surgirá com o tempo mas, para isso, é preciso ter paciência e perseverança.

“(A infância) deve ser o primeiro momento da criança no esporte, em que ela aprende a ganhar e a perder. As pessoas acham que só porque a criança é talentosa – o que também pode ser um erro, por que às vezes a criança nem se descobriu ainda – acabam adiantando as fases”, diz Monika.

Aliás, o aprendizado da superação é fundamental. Tanto em relação a lesões, que podem acontecer a todos, mas também a dinâmica da ginástica. Um esporte tão difícil, em que as notas são decididas nos detalhes, é um caminho tortuoso. “Muitas pessoas entram no esporte pelas vitórias. O esporte é feito com muito menos vitórias e muito mais derrotas”, comenta Monika.

Talvez sejam as dificuldades – ou a maneira como elas são superadas – que tornem a ginástica um espetáculo para os olhos. Talvez sejam os belos movimentos, a busca dos atletas pela perfeição. Talvez seja o trabalho atento e silencioso da equipe técnica para que o suor dos bastidores se converta em brilho no pódio. Talvez seja a empolgação da torcida, admirada pelo encanto das apresentações.  Talvez a ginástica seja intensa demais para ser compartimentada – a melhor maneira de apreciá-la é, e sempre será, com a emoção. Nos resta aplaudir.

Tecendo tradições

Qual a diferença entre um objeto do cotidiano e uma obra de arte? No caso dos tapetes persas, esta linha tênue se perde entre os milhares de fios, e é impossível separar uma ideia da outra.

Usados ainda hoje na decoração, os tapetes persa têm uma tradição que remonta à Idade do Bronze na região da antiga Pérsia, atual Irã. Inicialmente, sua função era aquecer o chão das tendas, protegendo os habitantes do frio do deserto, mas, com o tempo, passaram a ter significados simbólicos, artísticos e até religiosos, muito além de sua função prática.

Os tapetes persas autênticos são produzidos de maneira totalmente artesanal pelas populações nômades do Irã, utilizando como matéria-prima a lã das ovelhas de seus rebanhos.

Depois de retirada da lã, ocorre o processo de tingimento, que utiliza corantes naturais encontrados na região, como flor de índigo, raiz de rubia e sulfato de cobre.

As lãs são tingidas em caldeirões com água fervente e corantes naturais por muitas horas, depois são expostas para secar ao ar livre. Em seguida, os fios são tensionados verticalmente no tear, formando a urdidura que, junto com os fios tecidos horizontalmente, a chamada trama, criam a base do tapete.

Na confecção também podem ser utilizados materiais nobres, como seda e fios de ouro ou prata, para criar o veludo, nome dado aos fios que são amarrados na base para criar os padrões do tapete. É esse trabalho que determina a riqueza da peça, pois quanto mais detalhados forem os padrões e quanto mais rente os fios forem cortados em relação à base, mais caros serão.

O trabalho de tecer os tapetes é tradicionalmente feito por mulheres, que os fabricam baseadas em padrões já estabelecidos ou desenhos originais. O processo pode levar anos, dependendo do tamanho do tapete, característica que também determina seu tipo.

Os motivos bordados também variam de acordo com a criatividade do autor, porém, como o islamismo proíbe a representação de figuras humanas e animais, os temas mais adotados são formatos geométricos e florais. Já os tapetes para uso religioso reproduzem o mihrab, nicho construído dentro das mesquitas que orienta as orações em direção à Meca.

Quanto mais decorados e mais complexos os padrões estabelecidos, mais tempo levará para o tapete ficar pronto, o que, consequentemente, aumenta seu valor. Sendo assim, era comum na antiguidade encontrar tapetes ricamente ornamentados, com fios de ouro e pedras preciosas, nas residências da realeza e de comerciantes ricos, pois eram também um sinal de status.

Cada uma dessas características sofre variações, desde o tipo dos nós do veludo até a intensidade de coloração, passando pelas estampas, o que faz com que seja impossível encontrar dois tapetes iguais.

Por isso, os tapetes são reconhecidos como um patrimônio cultural do Irã, através do qual é possível compreender a história do país e suas dinastias, além de ocuparem posição de destaque na arte islâmica.

Embora seu valor seja único, atualmente os tapetes sofrem com a concorrência de produtos industrializados e imitações, o que tem tornado difícil sua viabilidade econômica e o sustento das populações que ainda hoje encontram neles sua maior fonte de renda.

Isto mostra que, para apreciar a verdadeira beleza de um tapete persa é preciso compreender suas dimensões sociais, artísticas e culturais – elementos que apenas uma verdadeira obra de arte pode conter.

Explore seus sentidos

O ideal de uma arte completa, que explore todos os sentidos, não é uma novidade. A busca pela integração entre as diversas modalidades artísticas é tão antiga quanto a criação da ópera, que mescla elementos do teatro e a da música, e está cada vez mais presente com o apoio da tecnologia, após o desenvolvimento de técnicas como filmes em 5D e jogos em realidade virtual.

Embora seja cada vez mais comum a confluência entre formatos, técnicas e conceitos, até o momento, tem sido raro encontrar ideias que valorizem ou mesmo estimulem tato, visão, olfato, audição e paladar ao mesmo tempo, considerando todos como parte integrante da mesma experiência individual e coletiva.

É com o objetivo de romper essa barreira e integrar ainda mais os sentidos de forma inovadora que a compositora, maestrina, escritora e chef de cozinha Ysanne Spevack criou o projeto “Yntegrity”, que também é uma tentativa de unir suas carreiras na música e na gastronomia em uma única exposição, com um toque de personalização.

 

A iniciativa envolve gastronomia, neurociência e música, em uma abordagem única. Na estreia da exposição, em Nova Iorque, a temática escolhida para o pontapé inicial foi a felicidade. Ao longo da performance, os elementos são cuidadosamente combinados para integrarem-se entre si e ao ambiente, tornando-a o mais sinestésica possível.

O paladar, que não costuma ser abordado em instalações artísticas, dessa vez tem papel de destaque. Os pratos são preparados cuidadosamente utilizando conceitos como alimentação orgânica, livre de açúcar, com origens locais, vegana e são decorados de acordo com a proposta, buscando sintonia com a obra do artista Uncle Riley – colaborador de Ysanne no projeto – e com a música ambiente fornecida por um coral ao longo do jantar.

Assim como a interpretação da arte é única para cada pessoa, o “Yntegrity” traz a neurociência como forma de personalizar ainda mais o momento, avaliando os níveis de felicidade e os sentimentos de cada participante.

O novo conceito não poderia ser mais pertinente a esta época, envolvendo o engajamento físico, emocional, social e artístico das pessoas, despertando sensações intensas e criando memórias únicas como apenas a arte pode fazer.

Edward Hopper foto

As luzes e as sombras de Edward Hopper

O American Way of Life, expressão que serve como autorretrato dos Estados Unidos, nos apresenta uma vida de prosperidade e felicidade. Propagandas do início do século passado mostram, por exemplo, famílias unidas e alegres viajando, jantando em mesas fartas, e assistindo televisão nos fins de noite. Mas, é justamente um pintor norte-americano que, por meio das suas telas, faz um corte da verdadeira realidade da época. E essa realidade, infelizmente, pode ser vista até hoje nas ruas das grandes cidades: a solidão do homem.

O chocante nas pinturas de Edward Hopper, que viveu entre 1882 e 1967, é o fato de perceber que, em sua maioria, nossas vidas são tão melancólicas e estáticas quanto um quadro pendurado em uma parede. Isso porque Hopper retrata apenas aquilo que vê – uma janela, um café, uma sala de cinema.

Ainda que uma de suas pinturas mais famosas, “Nighthawks”, represente a vagarosidade de um bar em Manhattan durante a noite, é na luz e nas sombras do dia que Hopper usa seus traços e linhas para criar obras impressionantemente realistas.

Talvez, o silêncio transmitido pelo artista em seus quadros não seja mais que o sentimento da sociedade na Grande Depressão de 1929, e nas duas Grandes Guerras Mundiais, acontecimentos vivenciados por Edward Hopper. Mas, talvez, a quietude de suas telas nos diga apenas que Hopper percebeu, muito cedo, que a vida não é nada mais que tomar um café apoiado em um balcão.

 

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Segredos Bolonha Escultura Arte Monumento Itália

Os segredos de Bolonha

Viajantes são muito diferentes de turistas. Os viajantes conseguem se transportar através de histórias, fotos, relatos. Os viajantes conseguem enxergar muito além da imagem das paisagens, eles veem aura e história. Por isso a cidade italiana de Bolonha é um prato cheio para eles. Com seus sete segredos muito bem escondidos, entre copos de spritz típicos daquela região, ela cativa e instiga qualquer curioso.

Alguns dos mistérios envolvidos na enigmática cidade são de certa forma engraçados, mas estão bastante longe de serem piadas, já que eles contam muito da trajetória histórica da cidade. O primeiro se esconde em um pequeno pórtico de madeira, em Strada Maggiore. No teto se encontram duas flechas, que, segundo contam, chegaram ali depois de uma suposta traição. O conde, que vivia nas estradas, estava bastante desconfiado de que a Condessa, sua amada, o traía. Enfurecido ele contratou arqueiros para matar o amante.

Com o arco e a flecha na mão os profissionais estavam preparados para cumprir a missão quando, de repente, quem apareceu na janela foi a Condessa nua. Assustados, os arqueiros tentaram desviar o ataque e atingiram o teto do pórtico, que ficava bem acima da sacada. Até hoje ali estão as flechas, marcando esse acontecimento histórico.

Strada Maggiore

Portico Strada Maggiore

Como nada melhor que duas cidades dentro de uma, o segundo segredo é bastante amado pelos visitantes. Na pequena Via Piella de Bolonha se esconde uma mini Veneza. Ali, por meio de um pequeno buraco na parede, é possível ver os canais que tanto lembram uma das cidades mais românticas da Europa. É um toque do charme e da leveza de Veneza com os fortes traços medievais bolonheses. O terceiro é rondado de superstições. Contam que no topo da Torre Asinelle, que fica bem ao lado da famosa torre torta, existe um vaso quebrado escondido, mas não existem evidências fotográficas. Talvez seja tão difícil confirmar a existência disso porque dizem que os universitários, por exemplo, não se formarão se subirem a torre. Para os casais, outra maldição: se subirem juntos o término será inevitável.

Via Piella

Via Piella

O quarto pode ser um prato cheio para quem ama conversas levadas ao pé do ouvido. Na Piazza Maggiore há uma galeria com o teto em forma de abóboda que tem uma estrutura com uma acústica muito interessante. Ao sussurrar em um dos cantos da construção é possível ouvir do outro canto. Há duas possíveis explicações: uma diz que era um truque usado por leprosos para que pudessem se confessar, já que na época a lepra era uma doença atribuída aos pecados cometidos. A outra é a que coloca o local como um ponto em que juízes podiam conversar sem que ninguém pudesse ouvi-los, para evitar que descobrissem qualquer informação sobre os casos.

Piazza Maggiore

Piazza Maggiore

O quinto também surge de um grande recurso de arquitetura, na construção da Fontana del Netunno. A fonte, de grandes proporções, foi toda feita em bronze pelo famoso Giambologna. Na época o projeto do escultor foi considerado uma afronta aos bons costumes e à ética, por causa do tamanho do pênis de Netuno, e o cardeal da cidade pediu para que o artista o retirasse. Giambologna não ficou nada satisfeito com a restrição mas, em vez de afrontar a igreja, ele simplesmente fez com que o pênis só pudesse ser visto de um determinado ângulo. Para vê-lo é preciso se posicionar em um ponto específico, em que a mão na escultura faz uma ilusão de ótica que passou desapercebida por muitos na época, inclusive pelo clero.

Fontana del Netunno

Fontana del Netunno

Mais uma vez as construções carregam um mistério, mas já era de se esperar que isso acontecesse em uma cidade de tanta imponência arquitetônica. É o impressionante número de arcos, 666, que estão dispostos no caminho do centro até o Santuário da Madona de San Luca. Algumas correntes dizem que o número foi uma afronta aos costumes e crenças católicas, porque a contabilização dos arcos que é uma sequência de seis, número conhecido como profano, termina em um santuário. Ninguém nunca conseguiu confirmar se de fato era essa a intenção, mas a quantidade é notável.

Pórtico de São Luca – 666 arcos

Pórtico de São Luca – 666 arcos

O último mistério também tem relação com a Igreja e  já provocou diversas intenções de ataque. Isso porque dentro Basílica de San Petrono existe uma grande blasfêmia contra Maomé. Em uma de suas vinte e duas capelas existe um afresco chamado “Céu e Inferno”, inspirando na obra de Dante Alighieri, com uma pintura de Maomé sofrendo no inferno. É possível ter certeza de que ele é o personagem porque o artista escreveu, em letras discretas, Mohamed ao lado. O fato já desagradou muitos muçulmanos, que tentaram explodir a basílica. Devido às ameaças, o local é protegido por uma equipe do exército local.

Basílica San Petrono

Basílica San Petrono

É por tudo isso, e mais, que a cidade carinhosamente apelidada de Gorda, Culta e Vermelha atrai tantos olhares. É impossível não querer ir até Bolonha para conferir todos esses segredos e desfrutar de uma das cidades mais bonitas e charmosas de toda a Europa. Cheia de história, ela abriga grandes marcos como a primeira universidade do ocidente. Lá se misturam a presença jovem e a arquitetura bastante tradicional, dando um ar que só quem já esteve na cidade consegue sentir.

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