Documentário Archives - ZEISS Vision Care Brasil
Amyr Klink expedição neve viagem

Entre Céu e Mar: O Cais

O cais é a estrutura que recebe os barcos. É nele que as embarcações repousam enquanto as pessoas vêm e vão. O cais de Amyr, certamente, é Paraty. A história começa e termina no pior lugar do mundo. O pior e mais perigoso lugar onde Amyr já esteve, segundo suas próprias palavras. Cidade responsável por manipular o tempo e fazer com que as pessoas, deslumbradas, nunca quisessem sair dali. Cidade-porta. Dali, Amyr viu chegar e partir os barcos que diziam, por meio das cores de suas bandeiras, que era possível, graças ao mar, chegar muito, muito longe.

Bastava vencer o tempo. A vontade de ficar, de não fazer. No primeiro capítulo de seu último livro, Não há tempo a perder, Amyr relembra do pedido que fez ao Bio, o rapaz que cuidava da casa, antes de partir para a mais longa de suas viagens: que consertasse a janela quebrada. Polos conquistados e tempestades vencidas ao longo das mais de 27 mil milhas que percorreu ao longo de 642 dias não foram suficientes para que Bio pudesse consertar a janela. A resposta de seu cunhado Reginaldo, estarrecido diante do delito delatado foi: “O senhor não vai acreditar, seu Amyr, mas é que não deu tempo!”.

Como forma de não se tornar refém dos dias, Amyr tomou rumos que o fizeram encontrar todas as dimensões possíveis das horas e dos anos. Certamente descobriu que o tempo remando na calmaria do Atlântico se prolonga de uma forma absolutamente diferente de um dia completo no convés, vencido pelo cansaço das manobras contra tempestades que não dão trégua.

“Tudo para mim demora”, escreveu, no último livro, “essa é outra agonia que tenho. No final acontece do jeito que eu queria, mas no começo demora. Sinto essa ansiedade de que tudo tarda porque começo a pensar muito antes de acontecer”. Pensar e entender como as coisas funcionam, “desde a mecânica, a eletrônica, a geografia, a física, a nutrição” para depois descobrir que tudo pode ser alterado, refeito, consertado. Quase tudo, na verdade. “Com exceção do tempo. Uma hora perdida é uma hora perdida. Esse é um bem reciclável, indomável, que não podemos possuir”, escreveu. “Já tentei muitas vezes, fiquei fascinado pela ideia de possuir o tempo. Mas não vamos conseguir, por mais que nos esforcemos, alterar o tempo já vivido”.

Texto por Vinícius Bopprê

Amyr Klink navegando neve

Entre Céu e Mar: O Porto

O medo de quem navega não é o mar, mas a terra. O grande medo de Amyr Klink, como ele próprio diz, não está nas tormentas, nas ondas gigantes, nos problemas que podem surgir no barco. Seu maior temor, durante o desenvolvimento de uma viagem, é mais simples que isso: a possibilidade de a viagem não ser iniciada, a chance de seu barco, depois de anos de estudos e projetos, permanecer em terra.

A aventura, ao que parece, começa antes do mar. Ela tem início nos primeiros encontros de trocas de informações com engenheiros, médicos, nutricionistas, projetistas, arquitetos, especialistas navais. Passa pelos estudos e cálculos sobre a posição das estrelas por meio do compasso e da calculadora. E chega no grande desafio de criar, com poucos recursos, um barco que fosse capaz de trazê-lo da África para o Brasil remando ou, no caso do Paratii, robusto o suficiente para suportar 642 dias no mar.

 

“Descobri navegando que o tempo gasto em pensar e projetar é o mais importante da vida de um barco. Mesmo uma mínima canoa de pescar lulas que não tenha um projeto escrito, foi projetada na cabeça de seu construtor, foi projetada no olhar afiado do tirador que estudou o corte na mata”, escreveu em “Linha D’Água – Sobre estaleiros e homens do mar”.

Assim, com seu gosto peculiar pela quebra de regras, Amyr construiu, para sua primeira grande travessia, um barco que capotasse. Depois, desafiou a equipe, parceiros e empresários em busca do material perfeito, fosse qual fosse, para navegar entre os dois pólos. Os anos no mar e no frio da Antártica certamente não se aproximam do tempo dessas viagens em terra. “Amontoados de chapas”, ideias e papeis se acumulam sobre mesas de todas as partes do mundo com uma única certeza: barcos de verdade não nascem por acaso.

Texto por Vinícius Bopprê

Amyr Klink foto perfil olhares

Entre Céu e Mar: A Travessia

Sozinho, entre céu e mar, Amyr Klink partiu da Namíbia, na África, no ano de 1984. Seu destino era o Brasil. Mais precisamente Salvador, Bahia. O método escolhido para vencer as 3.700 milhas náuticas do Atlântico Sul que o separavam de sua terra natal era o remo. Amyr Klink decidiu enfrentar o segundo maior oceano do planeta com a força de seus braços e pernas, numa embarcação de pouco mais de seis metros de comprimento.

“A minha rota, longa, fria e tempestuosa, contava, no entanto, com correntes favoráveis na quase totalidade do trajeto e com a preciosa regularidade dos alísios de sudeste que unem o Sul da África ao Nordeste brasileiro. Caminho difícil e longo, mas o único possível para um barquinho a remo”, escreveu Amyr em “Cem dias entre céu e mar”livro que conta toda a história da travessia, desde o projeto do barco que, em junho daquele ano, tocaria o oceano.

Foram anos de pesquisa, dias de angústia e infinitas pilhas de papéis burocráticos até a chegada do dia 18 de junho. O dia da grande libertação, o dia em que Amyr seria dono de seu próprio destino. Se o alívio da partida foi grande, maior foi a alegria de sobreviver à despedida turbulenta em que quase viu seu barco naufragar. Os ventos que expõem os diamantes escondidos sob a terra são também os responsáveis pelas grandes ondas que, somadas às turbulências térmicas, fazem daquela costa africana um lugar extremamente inóspito. “Que diabos vim fazer aqui?”, pergunta a si mesmo. “Sair daqui”, responde, enquanto rema, de costas, “pensando na frente”.

Vencida a costa da Namíbia, e com as correntes trabalhando a seu favor, a viagem começou a render. O comandante impôs à sua tripulação de único homem um regime de trabalho de 10 horas diárias de remo. Fizesse chuva ou fizesse sol. Superou as capotagens, sem lutar contra elas, como era o plano de desenvolvimento do barco, e se encantou com o que o Atlântico escondia além das ondas e tempestades.

“Noite escura, sem céu nem estrelas. Uma noite ardentia. Estava tremendo. O que seria desta vez? A resposta veio do fundo. Uma enorme baleia, com o corpo todo iluminado, passava exatamente sob o barco, quase tocando-lhe o fundo”, descreveu Amyr. Guiado pela posição das estrelas e com a companhia de baleias festivas, tubarões famintos e gaivotas tão solitárias como o comandante, Amyr chegou à costa brasileira, cem dias depois de ter partido.

Encontrou abrigo na Praia da Espera e às 13h30 ligou o rádio para dizer aos seus amigos que estava, finalmente, cercado de coqueiros. Conversou com um pescador, que perguntou como é que tinha sido sua pescaria e por ali ficou, “balançando os pés na água”. “Na quietude daquela noite, a última, ancorado no infinito sossego da Praia da Espera, sonhando com os olhos abertos e ouvindo outros barcos que também dormiam”, Amyr decidiu não desembarcar. Ao contrário, dormiu. Achou que ainda precisava de alguns momentos a sós com o Atlântico.

Texto por Vinícius Bopprê